domingo, novembro 30, 2025
spot_img
HomePersonalidadesA Profundidade da Escrita de Clarice Lispector

A Profundidade da Escrita de Clarice Lispector

Clarice Lispector

Escritora e jornalista brasileira

Biografia de Clarice Lispector

Clarice Lispector (1920-1977) foi um dos maiores nomes da literatura brasileira do Século XX. Com seu romance inovador e sua linguagem altamente poética, sua obra se destacou diante dos modelos narrativos tradicionais. Seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, recebeu o Prêmio Graça Aranha.

Infância e Adolescência

Clarice Lispector nasceu na aldeia de Tchetchelnik, na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Era filha de Pinkouss e Mania Lispector, um casal de origem judaica que fugiu devido às perseguições durante a Guerra Civil Russa. Ao chegarem ao Brasil, fixaram residência em Maceió, Alagoas, onde residia Zaina, irmã de sua mãe. Clarice tinha apenas dois meses quando a família se estabeleceu no Brasil. Por iniciativa do pai, todos mudaram de nome. Nascida Haya Pinkhasovna Lispector, passou a se chamar Clarice.

Mais tarde, a família mudou-se para Recife, onde Clarice passou a infância na casa localizada na Praça Maciel Pinheiro, 387, no Bairro da Boa Vista. Aprendeu a ler e escrever muito cedo e logo começou a redigir pequenos contos. Clarice foi aluna do grupo escolar João Barbalho, onde fez o curso primário. Estudou inglês e francês e cresceu ouvindo o idioma iídiche, falado em casa. Ingressou no Ginásio Pernambucano, considerado o melhor colégio público da cidade.

Aos 12 anos, Clarice mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde morou no Bairro da Tijuca. Ela se tornou uma frequentadora assídua da biblioteca local. Em 1941, começou a Faculdade Nacional de Direito e trabalhou como redatora da “Agência Nacional”. Depois, atuou no jornal “A Noite”. Em 1943, casou-se com Maury Gurgel Valente, um amigo de turma, e em 1944 se formou em Direito, recebendo o grau de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais apenas em 1952.

Primeiro livro

Clarice publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, em 1944. A obra apresenta uma visão interiorizada do mundo da adolescência, marcando uma nova tendência na literatura brasileira. O livro surpreendeu críticos renomados da época, como Antônio Cândido e Álvaro Lins. Sua narrativa quebra a sequência tradicional de começo, meio e fim, reconfigurando a estrutura cronológica, e funde prosa e poesia. O romance teve uma recepção calorosa do público, recebendo, no mesmo ano, o Prêmio Graça Aranha.

Viagens e novas publicações

Em 1944, Clarice acompanhou seu marido em viagens pelo exterior, começando por Nápoles, na Itália. Durante a guerra na Europa, ela se integrou, como voluntária, à equipe de assistentes de enfermagem do hospital da Força Expedicionária Brasileira. Em 1946, de volta ao Brasil, publicou O Lustre. Após uma longa estada na Suíça, lançou A Cidade Sitiada em 1949. Nesse mesmo ano, nasceu seu primeiro filho, Pedro, e ela começou a dedicar-se a contos, publicando Alguns Contos em 1952.

Depois de seis meses na Inglaterra, em 1954, o casal foi para Washington, Estados Unidos, onde nasceu seu segundo filho, Paulo. Nesse mesmo ano, Perto do Coração Selvagem foi traduzido para o francês.

Jornalismo e Literatura Infantil

Em 1959, Clarice separou-se do marido e voltou ao Rio de Janeiro com os filhos. Logo começou a trabalhar no “Jornal Correio da Manhã”, onde assumiu a coluna “Correio Feminino”. Em 1960, atuou no “Diário da Noite” com a coluna “Só Para Mulheres” e lançou Laços de Família, um livro de contos que ganhou o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro.

Em 1967, publicou O Mistério do Coelhinho Pensante, seu primeiro livro infantil, o qual recebeu o Prêmio Calunga, da Campanha Nacional da Criança. Nesse ano, um incidente grave ocorreu: Clarice sofreu queimaduras ao dormir com um cigarro aceso, o que a levou a passar por várias cirurgias e viver isolada, mas continuou a escrever. No ano seguinte, começou a publicar crônicas no Jornal do Brasil e integrou o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro. Clarice era muitas vezes considerada uma “pessoa difícil”. Em 1976, ganhou o primeiro prêmio do X Concurso Literário Nacional de Brasília pelo conjunto de sua obra.

Última publicação em vida

Em 1977, Clarice Lispector escreveu Hora da Estrela, sua última obra publicada em vida. A história conta a jornada de Macabéa, uma jovem do interior tentando sobreviver na cidade grande. A versão cinematográfica do romance, dirigida por Suzana Amaral em 1985, conquistou importantes prêmios, incluindo o troféu Urso de Prata, para a atriz Marcélia Cartaxo, em Berlim.

Características da obra de Clarice Lispector

Clarice Lispector fez parte da “Terceira Geração Modernista” ou “Geração de 45”, um período de renovação nas formas de expressão literária, principalmente em prosa, nos gêneros conto e romance. Em busca de uma linguagem única para expressar paixões e estados da alma, a escritora utilizou recursos técnicos modernos como análise psicológica e monólogo interior.

É considerada uma escritora intimista e psicológica, mas sua obra também permeia temas sociais, filosóficos e existenciais. As histórias de Clarice raramente seguem uma estrutura tradicional; sua ficção transcende o tempo e o espaço, frequentemente apresentando personagens femininas em situações-limite, geralmente ambientadas em centros urbanos.

Apesar de nunca ter aceitado o rótulo de escritora feminista, muitos de seus romances e contos têm protagonistas femininas marcantes, como Joana, de Perto do Coração Selvagem, Virgínia, de O Lustre, Lucrécia Neves, de A Cidade Sitiada, e Macabéa, de A Hora da Estrela.

As cartas de Clarice

Clarice Lispector viveu quase duas décadas fora do Brasil, mantendo uma rica correspondência com amigos que revelam seu olhar sobre os absurdos do cotidiano e as agruras da condição humana. Essas cartas foram reunidas na obra Todas as Cartas, lançada em 2020.

O livro inclui cartas enviadas a João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Érico Veríssimo, a quem fez elogios, e sua esposa Mafalda, com quem conviveu em Washington. As cartas trocadas com Lúcio Cardoso também mostram longas conversas sobre literatura e a amizade que manteve com Fernando Sabino, registrada em Cartas Perto do Coração (2001), onde Clarice compartilha frustrações por estar longe de casa.

Morte de Clarice Lispector

Clarice Lispector faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de dezembro de 1977, vítima de câncer de ovário, um dia antes de seu aniversário. Seu corpo foi sepultado no cemitério Israelita do Caju.

Obras de Clarice Lispector

  • Perto do Coração Selvagem, romance (1944)
  • O Lustre, romance (1946)
  • A Cidade Sitiada, romance (1949)
  • Alguns Contos, contos (1952)
  • Laços de Família, contos (1960)
  • A Maçã no Escuro, romance (1961)
  • A Paixão Segundo G.H., romance (1961)
  • A Legião Estrangeira, contos e crônicas (1964)
  • O Mistério do Coelho Pensante, literatura infantil (1967)
  • A Mulher Que Matou os Peixes, literatura infantil (1969)
  • Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, romance (1969)
  • Felicidade de Clandestina, contos (1971)
  • Água Viva, romance (1973)
  • Imitação da Rosa, contos (1973)
  • A Via Crucis do Corpo, contos (1974)
  • A Vida Íntima de Laura, literatura infantil (1974)
  • A Hora da Estrela, romance (1977)
  • A Bela e a Fera, contos (1978)
RELATED ARTICLES

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Most Popular

Recent Comments