sexta-feira, janeiro 30, 2026
spot_img
HomePersonalidadesA Vida e a Obra de Antero de Quental: Reflexões de um...

A Vida e a Obra de Antero de Quental: Reflexões de um Poeta Português

Antero de Quental

Poeta e filósofo português

Biografia de Antero de Quental

Antero de Quental (1842-1891) foi um poeta e filósofo português, conhecido como um verdadeiro líder intelectual do Realismo em Portugal. Ele se dedicou à reflexão dos grandes problemas filosóficos e sociais de seu tempo, contribuindo decisivamente para a implantação de ideias renovadoras na geração de 1870.

Antero Tarquínio de Quental nasceu em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal, no dia 18 de abril de 1842. Filho do combatente Fernando de Quental e Ana Guilhermina da Maia, iniciou seus estudos na sua terra natal.

Aos 16 anos, em 1858, Antero ingressou no curso de Direito na Universidade de Coimbra, onde rapidamente se destacou como líder acadêmico, devido à sua marcante personalidade e reflexões profundas.

A religiosidade herdada de sua mãe e os exemplos do pai e do avô, que se opuseram ao absolutismo, aliados à sua grande sensibilidade, despertaram nele uma preocupação desde cedo com os problemas sociais e políticos do país.

Enquanto estudava em Coimbra, Antero de Quental organizou a Sociedade do Raio, com o intuito de renovar o país pela literatura. Em 1861, começou a publicar versos que o projetaram como uma das vozes mais inovadoras de sua época.

O Realismo em Portugal – Questão Coimbrã

Ainda na faculdade, Antero liderou um grupo de estudantes que repudiai as velhas ideias do Romantismo, gerando uma polêmica entre a velha e a nova geração de poetas.

Em 1864, Teófilo Braga lançou dois volumes de versos: Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras. No ano seguinte, Antero publicou Odes Modernas.

Com Odes Modernas, Antero rompeu com a poesia tradicional portuguesa, banindo o romantismo e a religiosidade lírica, e trazendo à tona as ideias de liberdade e justiça com grande força.

Seus poemas, no entanto, foram alvo de críticas Severas, como as do poeta romântico Antônio Feliciano de Castilho, que acusou Antero de exibicionismo e obscuridade ao tratar de temas que, segundo ele, não pertenciam à poesia.

Antero, por sua vez, respondeu na carta aberta intitulada Bom Senso e Bom Gosto, onde criticou a visão de Castilho e defendeu a liberdade de pensamento, a renovação da literatura e a independência dos novos escritores.

Essa troca de ideias é marcada como a “Questão Coimbrã”, que se tornou um divisor de águas entre o Romantismo e o Realismo na literatura portuguesa.

Novas Experiências

Após intensas polêmicas entre os conservadores e aqueles que, como ele, se opunham ao determinismo e ao positivismo, Antero decidiu viver como operário. Embarcou para Paris com a intenção de aprender tipografia.

Durante dois anos, trabalhou como tipógrafo, mas sua saúde debilitada o forçou a retornar a Lisboa em 1868, onde começou uma fase de intensa militância.

Antero criou o “Grupo Cenáculo” junto a outros literatos, incluindo Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, e foi um dos fundadores do “Partido Socialista Português”, além de aderir à I Internacional. Em 1869, fundou o jornal “A República”, junto com Oliveira Martins.

As Conferências Democráticas

Em 1871, Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins e Ramalho Ortigão organizaram uma série de “Conferências Democráticas” no Cassino Lisbonense, com o objetivo de realizar reformas na sociedade portuguesa.

O grupo ofereceu um extenso programa de conferências. A primeira foi proferida por Antero com o tema: “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”.

Entretanto, a tentativa de realizar a V Conferência foi interrompida, quando o ministro do Reino impediu sua realização, acusando os conferencistas de intencionarem subversão.

Apesar da crítica severa das autoridades, o grupo lograva um sucesso tremendo ao solidificar as raízes do Realismo Português.

No ano seguinte, 1872, Antero começou a colaborar na edição da revista O Pensamento Social, ao lado de José Fontana. Contudo, a geração conhecida como “Geração de 70” dispersou após a repressão que se seguiu às conferências.

Poemas de Antero de Quental

A carreira poética de Antero de Quental pode ser dividida em três fases, que refletem modificações em seu espírito e nas influências que sofreu ao longo do tempo.

Com forte influência do idealismo hegeliano e do socialismo de Proudhon, Antero publicou Odes Modernas em 1865, impregnada de um realismo radical. Nessa obra, o poeta compôs poesias que refletiam a Revolução e seus ideais.

No entanto, a excessiva sentimentalidade acabou por impedir que realizasse uma poética inteiramente reformista. Antero viveu uma tensão entre a tradição religiosa e a ação social de suas obras.

No soneto “Mais Luz”, ele expressa um conteúdo revolucionário e social:

Mais Luz!

Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis
A borda dos abismos silenciosos…

Tu, Lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-se, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro Sol, amigo dos heróis!

Em 1871, Antero publicou Primaveras Românticas, onde encontramos versos impregnados dos valores do Romantismo.

Nirvana

Viver assim sem ciúmes, sem saudade,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
deixando pelo chão, rosas e espinhos.

Poder viver em todas as idades,
poder andar por todos os caminhos,
indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos…

Após ser acometido de tuberculose entre 1873 e 1874, Antero passou por uma fase de desilusões. Os versos do soneto “O Que a Morte Diz” refletem seus maiores sofrimentos:

O Que a Morte Diz

Deixai-os vir a mim, os que lideram,
deixai-os vir a mim, os que padecem,
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem…

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem…

Assim a morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das coisas invisíveis, muda e fria…

Entre 1879 e 1886, Antero transferiu-se para o Porto, onde publicou sua melhor obra poética: “Sonetos Completos”, de sentido nitidamente autobiográfico.

Antero de Quental, à sombra de uma profunda depressão, tirou a própria vida no dia 11 de setembro de 1891, em Ponta Delgada, Portugal.

Obras Poéticas de Antero de Quental

  • Sonetos de Antero (1861)
  • Odes Modernas (1865)
  • Primaveras Românticas (1872)
  • Sonetos Completos (1886)
  • Raios de Extinta Luz (1892)
RELATED ARTICLES

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Most Popular

Recent Comments